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“As artes manuais nos colocam em outra frequência, desligamos dos alarmes, entramos num estado quase meditativo”, diz Camila Visentainer sobre sua produção artística manual. Nascida em São Paulo, a Camila explora diversas mídias para apresentar as inspirações e vontades de criar que surgem no dia-a-dia.

Os trabalhos a mão são seu ponto forte e também um suspiro criativo em tempos de supremacia tecnológica; dedicar-se às artes como bordado e crochê promovem uma volta aos instintos ancestrais e também uma reconexão com o próprio Eu.

A expressão artística também serve como busca pelo empoderamento e descoberta de si. E essa expressão artística é bem poliglota: fala através de zines, desenhos, colagens e até mesmo comidas. O importante é perceber que todos esses idiomas convergem para uma mesma língua: a transformação e realização pessoais. Desta maneira, a Camila vai seguindo por muitos caminhos, experimentando possibilidades e inspirando tantas outras mulheres a também criarem suas realidades.

(Camila Visentainer)

Além de nos conceder esta entrevista, a Camila faz parte do novo zine do Distúrbio Feminino (a edição #4, marcada para sair ainda neste mês), com uma ilustração tão especial que fica difícil não ficar hipnotizadx. Ela é também uma das convidadas do nosso festival (que vai rolar dia 22/julho, em SP) e fará parte da roda de conversa sobre Mídia Feminista Online/Offline ao lado de outras mulheres produtoras de conteúdo.

Leia abaixo:

Distúrbio Feminino: Qual sua relação com o mundo das artes? Algo que vem de família ou foi um interesse próprio?

Camila: Acho que uma mistura das duas coisas. Meu pai sempre gostou de música e desde pequena eu ouvia de tudo com ele. Sempre fui muito criativa, gostava de desenhar, recortar, costurar, de tudo que eu pudesse criar com as mãos. Com o passar dos anos esses interesses só foram evoluindo e se aperfeiçoando, acho que eu não seria feliz fazendo outra coisa da vida que não fosse arte.

DF: Como começou a desenvolver suas habilidades?

Camila: Quando terminei o ensino médio e entrei na faculdade de jornalismo conheci a fotografia, e a partir daí as coisas começaram a fazer mais sentido. Percebi que capturar imagens e torná-las belas e instigantes era o que mais me fazia feliz, saí da faculdade e fui estudar fotografia, depois desenho, música, vídeo… Fui cada vez mais entrando de cabeça em todos os assuntos e linguagens que permitiam me expressar.

DF: Com quais linguagens artísticas você trabalha?

Camila: Fotografia, vídeo, desenho, colagem, bordado e crochê, mas com fortes paqueras com a música e a performance.

DF: Você editava e produzia dois zines impressos, o do Coletivo Clandestino e o Melão Cólica. Um era uma ideia colaborativa e o outro produzido apenas por você. Pretende voltar a fazer zines? O que essa mídia pode transmitir?

Camila: Pretendo, sim. Sempre que vejo que tenho uma quantidade boa de material legal acumulado, eu edito um Melão Cólica, e em breve terá um do Coletivo Cósmico também. Acho que é uma mídia democrática, sem censuras, todo e qualquer assunto pode ser abordado num zine, e esse material pode chegar nas mãos de qualquer pessoa. É uma ótima ferramenta para difundir a arte, ideias, assuntos polêmicos, poesia, enfim, qualquer assunto.

DF: Atualmente, você tem se dedicado mais ao bordado, certo? Muitas mulheres estão aderindo e vários grupos se reúnem para aprender as técnicas e inventar. O que você acha que produziu esse revival de bordar?

Camila: Sim, tenho produzido em todas as linguagens mas, nesses últimos meses, tenho feito vários bordados. Acho que as pessoas estão em busca de coisas mais “verdadeiras”. Viemos de um movimento forte de produção em série, tudo feito à máquina, relações virtuais, falta de tempo, e o resgate do bordado traz de volta essa conexão consigo. É um exercício de paciência difícil de executar em tempos tecnológicos que tudo acontece na velocidade de um click, mas no fundo todxs nós estamos precisando, de alguma forma, dar uma distanciada desse mundo virtual. Sem contar que o bordado deixou de ser algo careta, feito pra decorar enxovais, e passou a ser uma linguagem artística e descolada que está dialogando com assuntos atuais.

DF: Você faz parte do Coletivo Cósmico. O que fazem juntas e o que querem passar?

Camila: Fazemos arte. O coletivo surgiu pra nos manter em movimento constante e pra nos instigar artisticamente. Somos todas muito inquietas e o coletivo é a casa da nossa produção autoral. Queremos que nossa arte faça as pessoas pensarem sobre si e sobre o mundo.

DF: No Coletivo, vocês promovem desafios entre si com temáticas feministas. Como elaboram os desafios e como funcionam?

Camila: Todas são livres para propor o tema que quiserem, anotamos todos num papel e vamos fazendo os temas de forma aleatória. Somos diferentes e cada uma tem a sua busca, então os temas propostos sempre nos tiram da zona de conforto. Às vezes um tema proposto pelas meninas não tem nada a ver com minhas reflexões no momento, e isso que é bacana, ser instigada a produzir coisas que às vezes nem passaram pela minha cabeça, um desafio mesmo!

DF: Como você mantém/busca inspiração?

Camila: Andando de bicicleta, ouvindo música, cuidando das minhas plantas e estudando.

DF: Quais seus temas favoritos? (feminismo, natureza, cosmos, etc)

Camila: Gatos! Brincadeira, rs. Acho que meu tema favorito é o que eu sinto. Sempre produzo baseada em algo que está dentro de mim e preciso colocar pra fora. Às vezes a criação faz parte de um processo de estudo, mas não se limita a algo específico. Quando eu estava estudando sobre o veganismo produzi uma série de fotografias de pratos veganos. Minha vivência com o jardim deu início a uma série de desenhos de observação das plantas usando tinta. Minha vivência como Mulher e meu processo de desconstrução e libertação do machismo me faz bordar temas feministas, e por aí vai.

DF: Qual a importância de nos dedicarmos às artes manuais em tempos de tanta tecnologia?

Camila: As artes manuais nos colocam em outra frequência, desligamos dos alarmes, entramos num estado quase meditativo, e isso é importantíssimo para o auto-conhecimento e auto-controle. Sem contar que algo manual, feito pela sua própria mão, gera um sentimento forte de empoderamento.

DF: O atual movimento empoderador das mulheres frisa que devemos nos expressar como quisermos. Qual liberdade você ainda quer conquistar fazendo sua arte e sendo Mulher?

Camila: Liberdade de ir e vir sem receios, de ser exatamente quem eu quero ser e não me preocupar com julgamentos ou padrões. Quero que minha arte faça outras pessoas também se sentirem poderosas e maravilhosas. Outra coisa que busco sendo Mulher nas artes é igualdade: que existam mais mulheres expondo e menos mulheres expostas nas galerias (e em todo cenário artístico).

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Grrrl Germs é a coluna do Distúrbio Feminino com links, dicas e piras sobre música, feminismo, tendências, cena nacional, comportamento e tudo mais sobre a Mulher, os meios, o som e o Sagrado. Este boletim soma à nossa produção de conteúdo feita em zine impresso, podcast, posts em redes sociais, playlists e demais mídias. Comentários, sugestões, dicas e erratas podem ser enviados por e-mail: contato@supernova.mus.br.

 

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Mariângela Carvalho

Escrito por Mariângela Carvalho

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