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Grrrl Germs com sons, leituras e o rolê empoderador da tarde de hoje:

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Hoje é dia de colar no Centro Cultural da Juventude pra prestigiar mais um Maria Bonita Fest. Esta edição do festival tá cheia de atividades o dia todo, que incluem shows, oficina de patch, expo de zines e artesanatos. A festa tá convidativa pras mamães levarem as crianças também, oferecendo espaço kids com brincadeiras a tarde toda.

Uma parte importante do fest é a roda de conversa, momento de troca infinita e aproximação entre xs presentes. O tema da vez é a Mulher na Subcultura (dos cenários punk/hc/riot) e como o conhecimento é poderoso na transformação e no empoderamento. Mediado por Flávia Lucchesi (cientista social), todxs são bem-vindxs para ouvir e participar. Ao vivão tem 4 bandas pra conhecer e pirar: Rap Plus Size, Moita Punk, Quarteta (que tá em estúdio preparando o material de estreia) e Miami Tiger.

A partir das 13h, tamo colando pra ver de perto. Na página do evento tem todos os detalhes e não dá pra ficar de fora!

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Boas novas sonoras dos últimos dias incluem o novo single do Crystal Fairy, o EP de estreia das minas RÄIVÄ (Maceió) e o lançamento de Live in Paris, primeiro álbum ao vivo do Sleater-Kinney.

>>> Crystal Fairy é um supergrupo megalomaníaco com Teri Gender Bender (Le Butcherettes), Buzz Osborne e Dale Crover (ambos do Melvins) e Omar Rodriguez-López (At The Drive In). A banda tá boa de receber a menção de “nova salvação do rock” não fossem os anos de experiência que os integrantes carregam e o interesse zero em salvar qualquer coisa. A combinação stoner/sludge/metal que era de se esperar do time instrumentista só ganhou em ter Teri Gender no vocal. Esta Mulher, que talvez seja o diabo em pessoa, é provavelmente uma das figuras femininas do rock gringo mais completas em termos de interpretação, ideias originais e muita raiva uterina de que se tem notícia nos anos 10. Até agora, os 3 singles lançados não deixam a desejar e só instigam mais para o lançamento do full, previsto para 24/fevereiro. Vem ouvir a nova faixa, liberada dias atrás:

 

>>> Lá em Alagoas, dá pra dizer que o punk feminista tá sendo bem representado. Há poucos dias saiu o primeiro EP das meninas da banda RÄIVÄ, Não precisamos da sua aprovação. São 8 sons compilados em pouco mais de 10 minutos >>> sem tempo pra lamentos <<< e que merecem aquele ganho no volume na hora de ouvir. O material ficou encubado por um ano mas viu a luz do lançamento no último dia 5. No post de anúncio, o recado ficou mandado:

Nós acreditamos no empoderamento de mulheres e numa sororidade prática que só existe através do feminismo.Acreditamos também que toda mulher tem um poder incrível de revolução que é fortalecido com o apoio de outras mulheres, em horizontalidade. Em tempos em que os casos de violência, feminicídio, lesbofobia, transfobia são abafados pela grande mídia machista, nós gritamos em oito músicas a nossa forma de atuação no processo de revolução, que será feminista.

O EP tá disponível no Bandcamp e tem download gratuito:

 

Em agosto do ano passado rolou a notícia de um split f*dão com RÄIVÄ e Oldscratch (também alagoana) + as cariocas Trash no Star e Ostra Brains. A ser lançado pelo selo Oxenti Records (que, apesar do sotaque, é do RJ), o material terá 3 faixas de cada banda e pode resultar em turnê. A notícia foi dada no blog Cabeça Tédio junto com entrevista e essa montagem linda pra gente já ir querendo muito ouvir esse som.

 

>>> Na sexta (27) saiu o novo álbum do Sleater-Kinney, Live in Paris, gravado ao vivo no clube La Cigale, em 2015, durante a turnê de No Cities to Love. O anúncio veio bem no comecinho do ano quando elas postaram a capa do trabalho, que está sendo lançado em CD, LP, K7 e digitalmente pela Sub Pop. Que albão! 💘 Melhor ouvir do que falar:

 

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E boas velhas com saudosismo às Hysterics e às Raincoats:

>>> Hysterics era d+. Banda maravilhosa que fez como os bons e desapareceu cedo. Formada em 2010, foram apenas 4 anos envenenando artérias e corações com HC, punk e grunge.

Neste curto tempo, o quarteto excursionou pela terra natal (a do Tio Sam) e também pela Europa, varrendo pra debaixo do tapete os desavisados e se tornando um dos atos de maior visibilidade da cidade riot-original Olympia (EUA) nos últimos anos. São apenas dois EPs na discografia, mas já dá pra dizer que são clássicos.

 

 

Sdds, 💜.

>>> Talvez induzida pela chuva incessante de SP, Raincoats tocou bastante por aqui nos últimos dias, especialmente o Moving, de 1984. Terceiro álbum da discografia delas, é nítido que este lançamento não combina com a categoria de post-punk na qual sempre apareceu. Altamente experimental, Moving tá mais pra free jazz ou apenas uma cacofonia bem feita. Não deixo de achar curioso quando vejo a banda catalogada como punk music, apesar de ter surgido na mesma época que o punk e usufruir do ethos do-it-yourself. E apesar de inserida no post-punk como estilo musical, as Raincoats (junto das Slits e das Au Pairs) não estavam presas à uma ideia estética ou de como deveriam soar, elas estavam criando algo novo a partir de outro algo novo que tinha acabado de começar – o punk, o post-punk, a new wave, a no wave estavam em seus anos iniciais até então.

A musicalidade dessas bandas pouco se parecia com os congêneres ingleses do fim dos 70, as guitarras eram mais influenciadas por Velvet Underground  e existia um consenso sobre música como arte (igual à cena de Greenwich Village/Factory/NY nos anos 60), o que possibilitava criações infinitas (em contraposição à indumentária do “3 acordes”). No entanto, o uso de linguagens variadas (com tambores e percussões tribais, sopros, synths, violino) foi o que deixou a marca criativa deste contido grupo de bandas do “post-punk” inglês na timeline do rock, estendendo-se até mesmo pelo novo século, com o exemplo de Trapped Animal, último álbum das Slits, lançado em 2009 e que nem de longe soa qualquer coisa entre punk ou post-punk.

Passei na fanpage delas por curiosidade e essas senhoras estão esbanjando mais saúde que eu e meus amigxs. Além de várias apresentações em 2015 e 2016, as datas marcadas para este ano já estão soldout. Entre um show e outro, elas estão por aí aproveitando os clubes e as boas amizades. Em dezembro, no show do The Julie Ruin, em Londres, rolou tietagem mútua com direito à foto ao lado de Kath Hanna e Kathi Wilcox.  Quanta história num click só!

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Leituras:

>>> O texto “A conta do sofrimento masculino com a emancipação feminina chegou”, de Luiz Felipe Pondé, filósofo, professor e colunista da Folha de SP, é a própria definição de “male tears”.

Pondé sempre foi controverso, da sala de aula até os impropérios que publica no jornal e já desdenhava do Feminismo e de posturas mais anti-institucionalizadas/menos-tradicionais há tempos, >>> o que o tornou um dos articulistas mais antipáticos dos meios <<<. Como filósofo e estudioso da sociedade, parece estar na contramão das ideias libertárias, da revolução dos gêneros e da própria evolução dos costumes de nossa época. Não dá pra aceitar um intelectual que usa uma expressão como “a mulherada está bem fácil de comer” (essa frase do texto é de doer os olhos) e é ainda mais inadmissível (apesar de não ser surpresa) ter isso publicado no maior jornal do país. Crítico pensar que a ideia da “mulher fálica” (geralmente associada a mulheres poderosas na antropologia) possa ter sido usada num argumento tão raso e que exprime a total covardia masculina diante de mulheres independentes. Não precisa nem citar o quão misógina foi a argumentação do artigo e o quanto isso inflama a luta de gêneros (o texto dele também respinga homo/lesbofobia). Toma um Engov e leia na íntegra aqui.

>>> Pras mulheres punks de todo o mundo veio a calhar muito bem o texto “Porque eu não sou mais uma ‘garota legal’ do punk rock”.

Originalmente publicado no site Track7, a pensata ganhou tradução em português no Medium e define bem o sentimento de mulheres tantas vezes ofuscadas por seus amigos/parceiros/companheiros homens, oprimidas em suas opiniões e desejos por serem minoria, confundidas com “mais um dos caras” (((e isso não é um retrato apenas da cena ou da música, mas uma realidade enfrentada em todos os ambientes))).

Boa leitura pras minas encontrarem aquele conforto de saber que não passam por isso sozinhas e uma oportunidade pros manos praticarem a empatia:

“Garota legal” é um conceito inventado em um livro que nunca li (Gone Girl, de Gillian Flynn) mas se tornou familiar através de escritos feministas da cultura pop. Descreve um tipo específico de mulher que parece existir para satisfazer os desejos de homens — ela compartilha de seus interesses, é atraente mas baixa-manutenção, é basicamente “um dos garotos”.

(O contexto me lembrou de “Falo”, uma das músicas mais ácidas de 2016 e que está em Princesa, segundo álbum do Carne Doce (Goiânia). Quando ouvimos Salma Jô cantar “não importa quanto tempo passe / meu sexo sempre é um impasse / é a razão pra me acusar”, vemos que ser diminuída na cena também independe do estilo musical. A letra, aliás, é a tradução de sentimentos compartilhados por nós: termos nossas ideias roubadas, razões questionadas, motivos desmerecidos, conhecimento colocado à prova e outras agressões morais/psicológicas invisíveis.)

>>> E sobre essa questão da Mulher ter que provar suas capacidades ou inteligência independente do estilo musical, teve uma matéria no jornal Correio Braziliense sobre mulheres instrumentistas e a luta diária para ser levada a sério nos meios. O texto tem depoimentos de musicistas brasilienses das cenas de samba e choro, além de participação de Larissa Conforto, baterista do Ventre (RJ). Leia aqui.

>>> Quando usamos a expressão “O Futuro é Feminino” não é apenas um eufemismo ao crescente Feminismo. É uma afirmação de que as mulheres estão avançando mais rapidamente que os homens nas questões básicas de nossa evolução e sobrevivência como espécie >>> e que serão imprescindíveis para garantir nossa existência na Terra <<<. É a Mulher quem está encontrando soluções para a economia criativa, liderando movimentos sociais que afrontam o status e é quem está preocupada em diminuir os estragos causados pela *evolução&progresso*. Este artigo do Box1824 traz várias histórias de empreendedorismo feminino que resultam não só em satisfação pessoal mas em impacto positivo ao planeta e às relações sociais – além de dar as evidências de que esse Futuro Feminino já começou.

Propósito. É o que está movendo uma nova geração de pessoas a criarem seus próprios negócios com base em seus valores pessoais, que muitas vezes coincidem com os melhores interesses da sociedade. Mas quando colocamos uma lupa nesse movimento crescente, entendemos que são as mulheres que estão à frente dessa corrente.

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Falando sobre Futuro Feminino,  tenho seguido a campanha da Nestlé #OValorDoFeminino, que traz histórias inspiradoras sobre Feminismo e os novos direcionamentos trazidos com ele. A campanha também endossa a nova temporada de conteúdo digital da Bravo, chamada “O Feminino”, onde o assunto central é a transformação que a nova percepção tem trazido ao mundo. Quando digo nova percepção, quero dizer o Divino Feminino, a nova era e nossa posição atual na evolução dos sentidos. O Futuro é Feminino com certeza.

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Antes, durante e depois da Women’s March, troquei muita ideia com AJ Dent,  beloved amiga americana sobre a movimentação e como estava sendo a preparação para o ato local (ela reside em Oakland, Califórnia). No pós-marcha, pedi pra ela, que é conteudista, fotógrafa e ativista, deixar um recado pra gente sobre a vivência (ela também esteve no marcha em San Francisco) e algumas fotos. Check it out:

Nas marchas de Oakland e San Francisco a revolução no ar era nítida. Uma combinação de poderes vindo à tona e com força. Centenas de milhares de humanxs estavam lá para dizer que ‘black lives matter’, que a água é vida e que a cultura do estupro precisa acabar. Assim como questões problemáticas também foram levantadas: a exclusão das mulheres trans na campanha Pink Pussyhat Project, o feminismo branco se tornando cada vez mais feroz e a falta de atenção dada aos negros. Ainda bem que este dia foi apenas um passo, um movimento na direção certa. Temos que aprender unxs com xs outrxs ou nossos ideias não terão nenhum valor. Este dia mostrou o apoio que temos em todo o mundo. Quando olhamos para as mulheres e conseguimos ouvir, a mudança acontece. Vamos continuar assim porque o futuro depende de nós.

Oakland

San Francisco

 

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Grrrl Germs é a coluna semanal do Distúrbio Feminino com links, dicas e piras sobre música, feminismo, tendências, cena nacional, comportamento e tudo mais sobre a Mulher, os meios, o som e o Sagrado. Este boletim soma à nossa produção de conteúdo, feita em zine impresso, podcast, posts em redes sociais, playlists e demais mídias. Comentários, sugestões, dicas e erratas podem ser enviados por e-mail: contato@supernova.mus.br.

 

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Mariângela Carvalho

Escrito por Mariângela Carvalho

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