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BlogDistúrbio Feminino

Grrrl Germs Extra ::: Entrevista Carolina Ito (Salsicha em Conserva)

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A Carol Ito é novinha, mas sua experiência e vivência nos meios artísticos e acadêmicos é longa. Começou a rabiscar desenhos ainda na infância, inspirada nas revistas de mangá e na própria imaginação. Escolheu cursar Jornalismo como graduação mas está nos finalmentes de um mestrado em Ciência da Informação pela ECA-USP com pesquisa sobre a produção feminina de quadrinhos nos meios online.

Carol participa de feiras, debates e já fez colaboração para veículos como Revista Trip, Caros Amigos e jornais impressos. Em todos os lugares que vai, leva consigo o auto-empoderamento de ser Mulher nas Artes. Seu trabalho mais conhecido é a Salsicha em Conversa, personagem incomum, rebelde e contestador das normas.

A seguir tem entrevista com a Carol e, na próxima edição de nosso zine impresso, tem ilustração exclusiva e badass da Salsicha mais feminista de que se tem notícia!

Distúrbio Feminino: Qual a primeira memória que você tem de querer desenhar? Em qual momento percebeu que gostava disso?

Carol: Lembro que minha mãe comprou umas revistinhas de mangá e eu comecei a copiar algumas figuras. Ela elogiou (um milagre!), então, eu fiquei meio viciada em desenhar.

DF: Como desenvolveu seu estilo?

Carol: Não sei se desenvolvi um estilo homogêneo, mas sempre tento fazer coisas que eu acho que têm a ver comigo, com a minha personalidade. Em termos de técnica, acho que ainda estou buscando algo mais uniforme, mas sem pressa.

DF: Fale sobre seu currículo acadêmico.

Carol: Minha graduação foi em Jornalismo, na Unesp de Bauru. Agora, estou cursando Mestrado na área de Ciência da Informação, na ECA-USP, e minha pesquisa é sobre produção feminina de quadrinhos publicados na internet. É uma tentativa de mapear as mulheres que estão publicando no Brasil, porque acho importante ter esse registro, também em nível acadêmico.

DF: E seu currículo de trabalhos.

Carol: Eu faço freelas de reportagem e para a Batuq, empresa de design da informação. Tento me especializar na área do Jornalismo em quadrinhos e já publiquei reportagens nesse formato no site da Revista Trip e revista Caros Amigos. Aliás, fiz um livro em formato de reportagem em HQ chamado “Estilhaço: uma jornada pelo Vale do Jequitinhonha”, que foi meu TCC em jornalismo. É uma reportagem baseada em uma viagem que fiz para a região, conhecida pela pobreza e seca.

DF: Conta sobre o Salsicha em Conserva. De onde surgiu, qual foi a ideia, pq uma salsicha? rs

Carol: Bem agora com essa polêmica da carne de papelão, da salsicha… rs Eu queria fazer um livro em quadrinhos como TCC, então, sabia que precisava desenhar mais do que o habitual para aperfeiçoar o trampo. Então, em 2014, eu criei um blog para postar meus quadrinhos, o Salsicha em Conserva. Eu queria falar de coisas que eu gosto e, obviamente, o boteco foi a primeira coisa que me veio à cabeça. No interior de SP, todo boteco de respeito tem os potes de salsicha em conserva no balcão e eu sou uma apreciadora dessa iguaria tóxica e cancerígena. Depois de pensar no nome do blog veio a ideia de desenhar personagens salsichas. Acho que todo mundo é um pouco salsicha na vida, tem aquele lado tóxico e artificial. Claro que eu tento exacerbar isso com meus personagens e acabo fazendo críticas políticas e de comportamento.

DF: Você participa de várias feiras e bate papos pelo país e na gringa sobre quadrinhos e a Mulher nos quadrinhos. O que você poderia dizer sobre esses encontros?

Carol: É sempre bom estar dividindo esses espaços com outras mulheres que vivem situações parecidas, sempre aprendo muito sobre o trabalho na área de quadrinhos e sobre mim mesma, no final das contas. Sinto que muitas mulheres, mesmo tendo trampos fodas e se dedicando pra caramba, além de serem menosprezadas, têm que enfrentar diariamente uma infinidade de inseguranças por ocuparem espaços tradicionalmente masculinos. No último Encontro Lady’s Comics (evento organizado por um coletivo incrível, que surgiu para dar visibilidade ao trabalho das minas), que aconteceu em Belo Horizonte, no meio de 2016, ficou claro que temos o hábito de “pedir desculpas” por conquistarmos coisas com nossos trabalhos, ficamos naquele ciclo da “Síndrome da Impostora” e isso acaba desmotivando e até paralisando as mulheres quadrinistas.

(Carol participando da Lady’s Comics 2016)

DF: O mundo dos quadrinhos ainda é sexista? Em que momentos isso acontece?

Carol: Sim, dos mais sexistas dentro da cultura pop, eu diria. Poucas minas são convidadas a trampar em editoras de quadrinhos, poucas têm seus trabalhos publicados, poucas publicam tiras, cartuns e charges nos grandes jornais… Tem muita mina produzindo e publicando de forma independente, mas isso não chega ao mercado editorial e ao mainstream. Cito o episódio mais recente, do concurso de ilustração e quadrinhos da Folha de São Paulo: mais de 800 inscritos de todo Brasil, entre eles, mais de 200 minas. Resultado: nenhuma mulher entre os dez selecionados e trabalhos vencedores de qualidade duvidosa.

DF: Você acha que homens ilustradores e, principalmente chargistas, ainda usam piadas e conceitos sexistas ou percebe alguma mudança?

Carol: Acho que o movimento feminista tem feito muita pressão e divulgado seu posicionamento, o que acaba incomodando muitos desses profissionais. Alguns caras nos procuram para perguntar a opinião sobre algum trampo, mas ainda têm os que só repetem aquela frase mimada “hoje em dia não dá pra falar mais nada” ou reclamam que o mundo “tá politicamente correto demais”, esse velho mimimi.

DF: Como é a articulação em debates e conversas que reúnem homens e mulheres nas feiras e encontros?

Carol: Eu sou mais convidada e participo mais de eventos exclusivos para mulheres, parando agora para pensar. Existem iniciativas de minas que se juntam para vender fanzines nas feiras, para fortalecer o movimento, como é o caso da Venus Press. A gente articula muita coisa pelas redes sociais e é incrível porque minas de vários estados participam e depois a gente acaba se conhecendo pessoalmente.

DF: O que vc acha que mais promove a integração feminina nos meios artísticos hoje em dia?

Carol: Primeiro, é a vontade que as mulheres têm de se juntarem e de buscarem seus caminhos (mesmo que esbarrando em todo mundo) dentro de universos hostis e machistas. Rola um sentimento parecido com o do manifesto Riot Grrrl de que, se não nos juntarmos, continuaremos invisíveis. Além do que, é muito mais difícil e doloroso enfrentar tudo sozinha. Uma ferramenta que facilita essas articulações é a internet e as redes sociais, sem dúvida. Grupos nas redes sociais, como Zine XXX e Lady‘s Comics, mostram a importância da representatividade, porque você vê outra mina publicando suas histórias e pensa: eu também tenho vontade e posso fazer isso.

DF: A Mulher está em ascensão nas artes, mas casos como aquele da seleção de ilustradores da Folha de SP, sem nenhuma Mulher colocada, foi inacreditável. Ao mesmo tempo, os canais alternativos estão em alta e dando muito destaque pras mulheres. Como fugir dessas armadilhas da grande mídia?

Carol: Eu não sei quando a grande mídia será iluminada com o pensamento de que não é possível que só homens publiquem seus trabalhos (sobretudo, brancos e heteros) ou que eles sejam sempre a maioria. Enquanto isso não acontece, a gente segue lutando no campo político, profissional, acadêmico e artístico para garantirmos nosso espaço e representatividade. Estamos por toda parte, uma hora a coisa vai mudar e seremos donas da porra toda. rs

***

Grrrl Germs é a coluna semanal do Distúrbio Feminino com links, dicas e piras sobre música, feminismo, tendências, cena nacional, comportamento e tudo mais sobre a Mulher, os meios, o som e o Sagrado. Este boletim soma à nossa produção de conteúdo feita em zine impresso, podcast, posts em redes sociais, playlists e demais mídias. Comentários, sugestões, dicas e erratas podem ser enviados por e-mail: contato@supernova.mus.br.

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Produção CulturalSuper Novas

Sinewave promove festival no Z Carniceria

Sinewave Fest no Z – baixa 2

Evento reúne Macaco Bong, Huey e The Tape Disaster durante a Z(te) Mostra, dia 31 de março

A música instrumental vai estar bem representada na noite de sexta-feira (31), no Z Carniceria, com o primeiro festival do selo e produtora Sinewave em 2017.

Tornando-se uma tradição no calendário do selo, os festivais apresentam as variadas linguagens musicais dentro da Sinewave, que vão do post-rock ao shoegaze e englobam toda e qualquer vertente da Música Torta. Experimentalismo, virtuose, sinfonias barulhentas, peso e dissonância somam ao pacote, principalmente ao vivo, e é o que não vai faltar na apresentação que junta Macaco Bong (MT), Huey (SP) e The Tape Disaster (RS). Da guitarra afro aos acordes de um bom heavy metal setentista, a noite vai ser especial para quem procura técnica mas não dispensa um improviso.

O trio Macaco Bong, formado em Cuiabá (MT), em 2002, firmou-se como um dos maiores com sua trajetória e discografia. Trabalhando para divulgar o último álbum, chamado apenas de Macaco Bong, o repertório da apresentação tem faixas deste novo trabalho e versões para músicas do Nevermind, álbum do Nirvana, que o grupo tem executado ao vivo desde o ano passado. Huey, quinteto paulistano, mostra algumas da estreia Ace (2014), o single de 2016 “Adeus Flor Morta” e algumas inéditas, presentes no novo álbum, com previsão de lançamento no segundo semestre. Já The Tape Disaster vem estrear o novíssimo Oh! Myelin, em São Paulo. Marcado para ser lançado no dia 24/março, este é o primeiro álbum cheio dos gaúchos, que já contam com dois EPs e um single lançado entre 2011 e 2016.

Além de uma noite para contemplar a diversidade de estilos do Nacional Instrumental, esta edição do Festival Sinewave também serve para colocar em vitrine a produção musical espalhada pelo Brasil.

(Arte por Alexandre Palacio)

Serviço:

Festival Sinewave com Macaco Bong, Huey e The Tape Disaster

Sexta-feira, 31 de março

Z Carniceria | Av. Brigadeiro Faria Lima, 724 – Pinheiros | São Paulo (SP)

Horário: A partir das 22h

Ingressos: R$15 (antecipado) | R$25 (porta) | venda online
Sinewave: Produtora e selo, a Sinewave tem um extenso catálogo de lançamentos construído desde 2008. Apostando nas linguagens instrumentais, experimentais e barulhentas, mais de 80 bandas e artistas somam quase 170 álbuns lançados por eles. Contato: sinewave@sinewave.com.br

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